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A Terceira Margem – Parte CCIII – Navegando o Tapajós ‒ Parte XVII – Cerâmica Santarena IV

Publicado em: 27/04/2021 - 3:10

Navegando o Tapajós ‒ Parte XVII 

Cerâmica Santarena IV

Márcio Amaral o “Arqueólogo” Santareno

Ele sabe mais sobre Cerâmica Santarena do que qualquer pessoa. Poucos dos meus estudantes de pós têm o treinamento que ele tem. (Anna Roosevelt)

Márcio Amaral trabalha como jardineiro e como vigia de um depósito mantido em Santarém pela arqueóloga Anna Roosevelt. Amaral foi treinado por Roosevelt e chegou a ser coautor em um dos trabalhos científicos da americana.

A equipe de Roosevelt é a única a realizar escavações sistemáticas na Cidade, embora seus membros não residam em Santarém.

Você vai perguntar: Poxa, mas isso não é ilegal? Mas, já que o Estado não tem capacidade, eu, como cidadão, tenho o dever de zelar pelo patrimônio.
(Márcio Amaral)

 

Amaral possui uma coleção particular de fazer inveja ao pequeno Museu da Prefeitura de Santarém: fragmentos de Cerâmica colorida e decorada, ídolos de barro e até mesmo Muiraquitãs. A ausência de extensões do IPHAN ou do Museu Paraense Emílio Goeldi, na Cidade, permitem que estas irregularidades se perpetuem.

Relatos Pretéritos

 

Henry Walter Bates (1851)

Bates chegou a Santarém, pela segunda vez, em novembro de 1851 onde permaneceu por quase um ano. Em junho de 1852, subiu o Rio Tapajós e penetrou, em 03.08.1852, no Rio Cupari, nosso velho conhecido. O naturalista dedicou pouco de seu tempo aos artefatos de Cerâmica e, mesmo assim, apenas aos relacionados à Cerâmica produzida pelos nativos atuais.

Nas terras baixas da mata, à beira do Rio, o solo é coberto por uma argila branca e dura, que fornece ao povo de Santarém a matéria-prima para a feitura de potes de barro e toscos utensílios de cozinha. Todo o vasilhame usado pelas classes mais pobres da região, tais como chaleiras, frigideiras, cafeteiras, tachos, etc., bem como os fornos para torrar mandioca, são feitos dessa mesma argila, que é encontrada regular­mente em todo o Vale do Amazonas, desde os arredo­res do Pará até as fronteiras do Peru, formando parte dos vastos lençóis de tabatinga. Para os potes supor­tarem o calor do fogo, é misturada à argila a casca de uma árvore chamada caripé, depois de queimada, o que dá resistência à Cerâmica. A casca dessa árvore é encontrada à venda nas lojas da maioria das cidades, acondicionada em cestos. (BATES)

 

Charles Frederick Hartt (1870)

O material arqueológico tem sido tão rico que tem sido difícil de analisar. Novas coleções têm chegado constantemente, e o que eu pretendia que fosse um breve relato das antiguidades do Baixo Amazonas, evoluiu para um grande volume sobre as antiguidades de todo o Império.

Nesse trabalho, agora bem avançado em direção à finalização, eu proponho não só retratar e descrever os objetos que chegaram às minhas mãos, como artefatos de pedra, Cerâmica, vestígios humanos, etc., mas dar descrições dos sambaquis, cemitérios, inscrições rupestres, etc. (HARTT).

O geólogo Frederick Hartt, nos anos de 1870 e 1871, escavou o sambaqui de Taperinha a 40km de Santarém. A profundidade da escavação foi de seis metros, e além de conchas, foram encontrados ossos humanos, de peixes e Cerâmica. A Cerâmica, segundo Hartt, era:

Fabricada de argila, contendo proporção considerável de areia muito grossa, sem caripé e tendo a superfície relativamente lisa. Os fragmentos indicam que as vasilhas tiveram pela maior parte a forma de taça com fundo bem arredondado. A margem é muito simples, chanfrada do lado interno e um pouco virada para fora. Não são lustrados nem pintados, e pela maior parte mostram-se inteiramente despidos de ornamentações. Alguns pedaços, porém, apresentam riscos toscos do lado exterior, logo abaixo da margem e indicando aparentemente tentativas de decoração. (HARTT)

Hartt considerou que enorme quantidade de conchas encontradas sugeria que a alimentação básica dos nativos de Taperinha era feita de moluscos que, naquela época, eram abundantes e de fácil aquisição, o que não ocorria no ano de sua viagem. Segundo ele:

Parece, portanto provável que, depois de formado o sambaqui, tenha havido uma importante mudança física na Bacia do Amazonas. A própria posição do depósito torna mais provável esta hipótese.

Em vez de estar situado em terrenos de aluvião nas margens do Paraná-mirim, este depósito acha-se colocado a uma distância considerável do Rio, atrás de uma zona pantanosa de travessia difícil e numa altura considerável acima do maior nível das enchentes. (HARTT)

Hartt encontrou, também, a presença de vestígios em Itaituba, Diamantina e em Pá-Pixuna, onde encontrou fragmentos de Cerâmica em até 2 metros de profundidade. Considerou que a grande fertilidade do solo nestas áreas motivou a vinda de grupos humanos para estes locais.

Em Pá-Pixuna, suas escavações encontraram fragmentos de estatuetas e instrumentos de pedra. Hartt compara o material encontrado nestes sítios com a Arte Marajoara, afirmando que são muito diferentes e que a pintura:

[…] é frequentemente lustrada com barro branco e pintada, mas não vi ornatos em linhas pintadas ou gravadas como as de Marajó. (HARTT)

 

Hartt atribuiu a autoria dos objetos encontrados aos Tapajó:

[…] tribo foi encontrada pelos brancos na posse desta região, na época da primeira descoberta, e que deu nome ao Rio. (HARTT)

 

João Barbosa Rodrigues (1872)

A arqueologia é hoje uma ciência, por isso nela tudo deve ser exato e preciso; os nomes criados para seus monumentos devem perfeitamente caracterizá-los.
(Barbosa Rodrigues)

Barbosa Rodrigues foi designado pelo Império para explorar as Bacias dos Rios Tapajós, Trombetas e Nhamundá onde recolheu amostras e catalogou dados etnográficos. Em 1872, percorreu o Rio Tapajós, elaborando o mais completo histórico até então, no qual mesclava suas próprias pesquisas e observações com a de outros cronistas. Barbosa Rodrigues encontrou machados, estatuetas, fragmentos de Cerâmica, trilhas escavadas nas Serras e sambaquis.

Barbosa Rodrigues afirmava que os artefatos líticos formavam um conjunto de “instrumentos e armas de pedra”, e que ele era “o primeiro que os estuda e descreve no Brasil”. Considerava-os como verdadeiros “guias arqueológicos, que só dão luz à etnografia” e classificou-os em “armas de guerra, utensílios de uso agrícola e doméstico e enfeites. Os primeiros compõem-se de massas, de pontas de flecha e de uma espécie folha de alabardes, e os outros, de machados, enxós, cunhas, mãos de pilão, mós, etc, e os últimos, de Muiraquitãs”.

Ainda hoje, para muitos, o Muiraquitã é uma pedra sagrada, tanto que o indivíduo que o traz no pescoço, entrando em casa de algum tapuio, se disser: muyrakitan katu, é logo muito bem recebido, respeitado e consegue tudo o que quer.
(Barbosa Rodrigues)

 

No Rio Tapajós, próximo à Cachoeira do Buburé, encontrou um sítio que teria servido de oficina lítica; comparando os sulcos nas pedras ao formato do corte dos machados, deduziu como eram manufaturados estes objetos. Em relação aos artefatos “votivos” e enfeites como os Muiraquitãs, ele afirma que tinham a finalidade de proteger os indígenas nos seus afazeres diários e nos combates.

 

Maurício de Heriarte (1874)

[…] pedras verdes, que os Índios chamam de Muiraquitãs e os estrangeiros do norte estimam muito; e comumente se diz que estas pedras se lavram, neste Rio dos Tapajós, de um barro verde, que se cria debaixo da água, e debaixo dela fazem contas redondas e compridas, vasos para beber, assentos, pássaros, rãs e outras figuras; e, tirando-o feito debaixo da água, ao ar, se endurece tal barro de tal maneira que fica convertido em mui duríssima pedra verde; e é o melhor contrato destes Índios e deles estimado. (HERIARTE)

O historiador Heriarte menciona a adoração de corpos mumificados e destaca o apreço que os indígenas devotavam aos Muiraquitãs, que era usado como elemento de troca e de dote matrimonial.

 

Curt Nimuendaju (1923)

Curt Nimuendaju nasceu em Jena, Alemanha, no dia 17.04.1883 e morreu brasileiro em 1945 em uma Aldeia Tikuna do Alto Solimões. Naturalizou-se brasileiro em 1922. Conviveu com um grande número de culturas nativas de todas as regiões do Brasil e, a respeito de sua formação ele afirmava:

[…] não tive instrução universitária de espécie alguma, vim ao Brasil em 1903, tinha como residência permanente, até 1913, São Paulo, e depois Belém do Pará, e em todo o resto foi, até hoje [1939], uma série ininterrupta de explorações (NIMUENDAJU).

Foi batizado pelos Guaranis em 1906, e com este nome, ganhava uma causa à qual dedicou-se intensamente como indigenista e pesquisador privilegiado.

No seu artigo “Nimongaraí”, registrou a cerimônia de seu batismo indígena, realizada em uma fria madrugada de dezembro e firmava um compromisso:

Avacauju, que aliás também é médico-feiticeiro, levantou-se lentamente da rede, trocando algumas palavras em voz baixa com Poñochi e a mulher deste. Em seguida, Poñochi trouxe um banquinho com altura de apenas uma mão, encostou-o na parede e então disse, apontando para mim: Eju eguapy! [Venha e sente-se]. Saí do poncho e fiz como mandou. Poñochi tirou a canoa do seu esteio, pondo-se com isto ele do meu lado direito e sua mulher do meu lado esquerdo. Avacauju ficou com o chocalho na mão, calado por um momento na minha frente, como se tentasse lembrar em vão do início, depois começou subitamente com seu canto, e imediatamente os demais presentes entraram. Tremendo de frio, tive que aguentar o mesmo cantarejo. Avacauju, infelizmente, era muito meticuloso. Ele me chocalhou deslocando-se por todos os lados, cuidadosamente de um pé ao outro, parecendo querer me magnetizar com as pontas de seus dedos esticados. Manteve seus olhos fixos em mim e o feitio do seu rosto assumiu aquela expressão atormentada, estranhamente medrosa tão própria dos médicos-feiticeiros indígenas, e que dá a impressão de que ele age meio contra sua vontade, sob uma força sobrenatural. De repente, meteu as mãos dentro da canoa e me umedeceu com água no peito e na testa, do mesmo modo como fizera pouco antes com meu pequeno irmão. Avacauju também disse, nesse momento, algumas palavras incompreensíveis, na maneira de falar, tanto no aspirar quanto no expirar, que os médicos-feiticeiros usam nos seus procedimentos. Gravei daquilo apenas a palavra carairamo .

 

Depois ele recomeçou com outra melodia e devagar andamos em fila indiana em volta da choupana: em frente Avacauju com o chocalho, depois Poñochi com a canoa, em seguida eu e, por fim, a mulher de Poñochi que me segurava pelo pulso. Chegando novamente ao nosso antigo lugar, assumimos a mesma posição, com a cena toda se repetindo mais uma vez. Impacientemente, espiei através da parede de estacas, reparando no Leste já os primeiros sinais do novo dia. Passada uma segunda volta, Avacauju se pôs bem diante de mim e exclamou, hesitante e excitado, mas em voz bem alta e clara: Muendaju ma nderey! Nandereyigua nde! Nandéva nderenoi Nimuendaju! [Muendaju é teu nome! Tu fazes parte da nossa tribo! Os Guarani te chamam Nimuendaju!]. E então, apontando para Poñochi e sua mulher: Cova-ma ndeangá! [Eis teus parentes, quer dizer padrinhos de batizado]. Depois recomeçou, para meu pavor, a cantar de cabeça erguida diante de mim, mantendo as mãos sobre a minha cabeça, abençoando-me. Ainda demorou um bom tempo até que ele, deixando os braços caírem, desse um passo atrás, ao que o canto cessou e a cerimônia foi encerrada. (NIMUENDAJU)

 

Ele relata, fascinado, o achado de um ídolo esculpido em uma pedra verde (nefrite):

A terra preta em Cariacá produziu bons achados. Cariacá é uma pequena vila às margens de um estreito Lago que conecta o Rio Amazonas e o Rio Tapajós. Durante minha curta permanência nesta vila, eu coletei alguns artefatos arqueológicos da superfície e, quando eu estava deixando a vila, Joaquim Motta, o homem que me hospedou, saiu e foi para próximo do engenho perto de sua casa. Lá ele remexeu em uma pilha de lixo e trouxe um vil e sujo pedaço de pedra […].

Era um ídolo extrema bonito, mas lamentavelmente fragmentado feito em uma pedra verde. Ele tinha a forma de uma figura humana agachada, tendo as mãos sobre as orelhas, com um pássaro apresando-o por trás e por cima. A cabeça do pássaro foi quebrada e em toda a peça há arranhões feitos por alguma ferramenta. Se minhas informações estiverem corretas, esse é o décimo ídolo já encontrado. Barbosa Rodrigues em seu trabalho “O Muyrakytã”, desenhou e descreveu seis deles. Mais três foram descritos pelo Goeldi no “Congress of Americanists em Stuttgart”, fotografando-os, juntamente com um mencionado por Barbosa Rodrigues, para as suas não publicadas pranchas arqueológicas [Goeldi]. Todos esses ídolos conhecidos até hoje foram feitos em steatite e serpentina; o que eu encontrei é o primeiro e único feito de nephrite. (NIMUENDAJU)

 

Autor e Fonte: Hiram Reis e Silva

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