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A Terceira Margem – Parte CCXLV – Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 1ª Parte – XXV Forte Coimbra – Corumbá – III

Publicado em: 24/06/2021 - 4:35

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
1ª Parte – XXV

Forte Coimbra – Corumbá – III

Relato Pretérito: Morro do Sargento 

Jose Vieira Couto de Magalhães (1874)

 

Os tigres não são menos para temer-se, porque, ilhados nos pequenos altos que ficam acima d’água, nem sempre têm os meios de alimentar-se, e, famintos, tornam-se ousados como leões; o leitor o avaliará pelo seguinte, que é também uma recordação da Expedição de Corumbá: estavam na ocasião de retirada dois mil homens acampados em um morrinho, defronte à Vila, cuja explanada seria menos da metade do Morro do Castelo; quer dizer que estava quase todo o espaço ocupado pela força; um tigre saltou sobre um 1° Sargento do Primeiro de Voluntários, sacudiu-o sobre o ombro, e fugiu com tal precipitação que, perseguido e morto em menos de meia hora, tinha tido tempo para decepar a cabeça do infeliz Sargento, sugar-lhe todo sangue, e devorar parte do peito. (DE MAGALHÃES)

 

À tarde fizemos uma visita à Casa de Cultura Luiz de Albuquerque onde tive a oportunidade de me deparar com a histórica placa de bronze que Rondon mandara colocar em homenagem ao Tenente Frederico Bueno Horta Barbosa no passo da “corixa do Saran”, em que ele perecera afogado. Rememoremos:

 

Alferes-Aluno Frederico B. Horta Barbosa

Nos fastos das Comissões Rondon, basta que se chame “Horta Barbosa”, para que seja digno de toda a reverência, não só como caráter e competência, como pelos méritos de trabalhador infatigável e inteligente. 

 

A sua morte ocorreu em circunstâncias trágicas e há quem a decline como uma demonstração da força do destino e da teoria do fatalismo. A verdade é que foi ele vítima do altruísmo que pregava e praticava, como fervoroso adepto das doutrinas de Augusto Comte.

 

Ofereceu-se para substituir o engenheiro seu colega, escalado para serviços em zona de corixas e pantanais, à margem do Rio Paraguai, com a magnânima preocupação de que esse colega não sabia nadar e correria risco de se afogar. Obtido o consentimento do Chefe para essa troca, marchou ele com a sua turma de soldados ao primeiro clarão do dia; quando, porém, o crepúsculo da tarde começava a apagar a luz do Sol, o destino implacável apagava também a preciosa vida desse destemido e dedicado lutador.

 

Fazia-se, por essa ocasião, a linha telegráfica que ligou Corumbá, e os trabalhos, normalmente acelerados pela própria orientação de Rondon, haviam tomado uma febre de velocidade proporcional ao “tour de force” ([3]) imposto pelo Governo e que foi levado a termo: a inauguração da linha em 01.01.1904, para atender a injunções prementes da política internacional. No relatório apresentado pelo Chefe da Comissão, eis como é referido o doloroso acontecimento:

 

Por determinação minha, seguira, no dia 01.12.1903, do acampamento à margem direita do Paraguai para o interior, o Alferes-aluno Francisco Bueno Horta Barbosa com uma turma de praças, a fim de completar a distribuição de postes entre as corixas Saran e Areão. Tendo-se dado o extravio, nas águas de uma Baía próximo do Saran, de um dos postes que eram arrastados por meio de carretão, o Alferes-aluno Horta Barbosa deixou aí alguns praças incumbidos de retirar o poste do fundo da Baía, enquanto pessoalmente ia verificar quantas estacas estavam ainda sem poste, prometendo voltar sem demora.

 

Até escurecer, como não houvesse regressado o Alferes-aluno Horta Barbosa, resolveram os praças ir pernoitar no Capão que lhes servira de pouso no dia anterior e que era o único, nas circunvizinhanças, que não estava submerso. Ao amanhecer do dia seguinte, de novo vieram os praças à citada Baía, não encontrando aí o oficial. Seguiram então até corixa Saran, que encontraram totalmente cheia, em consequência das copiosas chuvas dos dias anteriores. Próximo à corixa achava-se, apenas com o cabresto, o animal que servira de montaria do oficial. Trouxeram os praças o referido animal até a corixa, examinaram o passo e aí encontraram dentro da água os arreios de uso do oficial. Todas estas circunstâncias lhes causaram as mais sérias apreensões, e como não pudessem passar a corixa, para indagar da turma da frente acerca do paradeiro do oficial, esperaram por ela que, tendo notícia do ocorrido, declarou não o ter visto. Procedendo todos a novo exame do local, nenhum vestígio foi notado de haver o Alferes Horta Barbosa, a pé ou montado, transposto a corixa. 

 

Ficou assentado que de tudo fosse feita comunicação ao Chefe da segunda Seção, Capitão Ávila, que tendo disso conhecimento na noite do dia quatro, enviou, na mesma ocasião, dois Praças e um Guia do Pantanal para, no local indicado, efetuar as necessárias pesquisas, no sentido de descobrir o destino do referido oficial. No dia seguinte, ao meio-dia, tendo já regressado ao acampamento aqueles praças, com a comunicação de terem encontrado, no fundo do passo da corixa Saran, o esqueleto do Alferes Horta Barbosa, cuja identidade foi reconhecida pelo seu vestuário e vários objetos que lhe pertenciam. Expediu o Capitão Ávila um Praça, portador de um ofício em que participava o doloroso acontecimento e, ao mesmo tempo, providenciou no intuito de ser removido o mesmo esqueleto para o acampamento, onde chegou nesse dia à tarde.

 

Logo após, foram inumados provisoriamente, os restos mortais do prezado companheiro na praça do acampamento. Havia eu partido para o acampamento da primeira Seção e me achava em marcha daí para a estação telegráfica provisória, instalada na Fazenda do Paraíso, quando recebi a triste comunicação do Capitão Ávila. Sem demora, parti para o acampamento da segunda Seção e aí providenciei a remoção do inditoso oficial para Corumbá, em cujo cemitério foi definitivamente inumado.

 

Chegando a este acampamento, mandei proceder a Inquérito Policial-Militar entre os Praças que faziam parte das turmas sob a chefia do Alferes Horta Barbosa. Desse inquérito, nada resultou que esclarecesse tão lamentável desastre, ficando, entretanto, averiguado que nenhuma culpabilidade havia da parte dos Praças. No passo da corixa do Saranem que ele perecera afogadomandei colocar uma placa de bronze com uma inscrição alusiva ao lamentável acontecimento. (MAGALHÃES, 1942)

 

Depois da Casa de Cultura visitamos o Hotel Galileo que Roosevelt cita textualmente que “dirigido por um italiano, era tão confortável quanto possível – chão ladrilhado, teto alto, grandes portas e janelas, um pátio descoberto e fresco e banho de chuveiro”.

 

A seguir fizemos uma breve incursão à Bolívia, onde os Dr. Marc e Timothy compraram algumas garrafas de vinho para abastecer a adega do Calypso. A visão das ruelas imundas não era nada agradável e os bolivianos só nos tratavam com uma afetada e falsa simpatia quando nos propúnhamos a adquirir algum dos seus produtos. À noite, os desbravadores fizeram uma apresentação da Expedição aos alunos da Universidade Federal (UFMS).

 

Autor e Fonte: Hiram Reis e Silva

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