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A Terceira Margem – Parte CCXXXV – Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 1ª Parte – XV

Publicado em: 10/06/2021 - 5:00

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
1ª Parte – XV

Forte Olimpo ‒ Forte Coimbra ‒ I

O distinto engenheiro Ricardo Franco por algum tempo opinou pela sua inutilidade; diversas considerações, porém, fizeram-no modificar o seu parecer e insinuar ao Governador Caetano Pinto a conveniência da continuação do Forte, que o mesmo oficial levou a efeito quase sem dispêndio da Fazenda Real, servindo ele de Arquiteto, de Feitor e de Mestre carpinteiro e pedreiro.
(Barão de Melgaço)

08.08.2017 (Forte Coimbra)

A alvorada magnífica permitia vislumbrar, ao longe, ainda imerso no nevoeiro, o bastião monumental erguido pela férrea determinação de Ricardo Franco, um dos maiores baluartes de nossa história. Na chegada ao Forte fomos gentilmente recepcionados pelo Cmt da 3° Cia Fron Cap Glauco Viana Coitinho que nos acompanhou, pela manhã em uma visita ao Forte.

 

14.12.1913: Forte Coimbra

Magalhães

Às 10h45, continuamos a subir o Rio Paraguai, montando, às 13h55, a pirâmide de base quadrada que, a poucos metros da margem direita, assinala os limites do Brasil com a Bolívia. Às 15h00, paramos junto ao porto de Coimbra. (MAGALHÃES, 1916)

 

Rondon

14 estávamos em frente do legendário Forte de Coimbra; o Sr. Roosevelt não o visitou, nem a famosa Gruta do Inferno, por considerar que o tempo de que dispunha para estar ausente da sua Pátria, mal comportaria a realização do programa anteriormente traçado. (RONDON)

 

Roosevelt

No decurso do dia seguinte o terreno à margem Oriental se tornara um vasto pantanal escalonado, aqui e ali, de coroas de terras mais altas, cobertas de mata. A manhã estava chuvosa, em contraste com o bom tempo que até então havíamos tido. Passamos portos de lenha e fazendas de gado. O proprietário de uma destas, argentino filho de irlandeses, que ainda falava inglês com o sotaque da terra nativa de seus pais, observou que era a primeira vez que o pavilhão americano aparecia no Alto do Paraguai, pois nossa canhoneira levava-o hasteado no mastro grande. Tendo, ao começo da tarde, alcançado o ponto onde ambas as margens do Rio eram território brasileiro, chegamos ao antigo Forte Coimbra, da época colonial portuguesa. Está situado onde dois escarpados morros se erguem, um de cada lado do Rio, e defende a garganta fluvial que entre eles passa. Foi tomado pelos paraguaios durante a guerra havida há quase meio século. Alguns canhões modernos foram aí montados e existe uma guarnição de tropa brasileira. O Forte alveja ao alto, na encosta do morro, na qual se encastoa, e sobe, terrapleno após terraple­no, com bastião, parapeito e muro ameado.

No sopé do morro, na planície ribeirinha, estende-se a antiga vila com suas casas cobertas de folhas de palmeira. Na vila residem algumas centenas de almas ‒ na maioria oficiais, soldados e suas famílias. Tem uma comprida rua. (ROOSEVELT)

 

Para entendermos melhor o contexto que levou o Capitão-general Caetano Pinto de Miranda Montenegro, ao assumir o Governo da Capitania do Mato Grosso, a nomear como Comandante da Fronteira Sul o Ten Cel Ricardo Franco vamos reportar o Capítulo II, da Sexta Parte, do livro “Um Homem do Dever – Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra” do General Raul Silveira de Mello – o grande memorialista do Forte Coimbra:

SEXTA PARTE – II CAPÍTULO

Ricardo Franco Encontra Fragílima

A Defesa de Coimbra e da Fronteira Sul

A paliçada construída por Matias Ribeiro da Costa, em 1775, era uma obra de emergência. Os outros Comandantes, até 1797, nada mais fizeram do que retocá-la e melhorá-la, sem nada adiantar quanto ao seu valor defensivo. A crosta terrosa do sítio em que fora construída media uns dois palmos de espessura e assentava diretamente na rocha, de tal sorte que as estacas, mal firmadas, podiam ser derrubadas com um murro, como dissera o Major Joaquim José Ferreira. Certa vez, uma pedra, rolando do morro, de encontro ao Presídio, derrubou as estacas que achou pela frente, tal como bola no jogo do boliche. Este fato inquietou o então Comandante, advertindo-o de que tal expediente poderia ser usado de surpresa pelos castelhanos, em plena noite, e até pelos índios, para estabelecerem a desordem na guarnição.

 

Ricardo Franco, ao assumir o comando do Presídio em agosto de 1797, ficou admirado de como essa frágil posição se tivesse mantido, face às possibilidades oferecidas aos índios Guaicurus, senhores da região, ou aos castelhanos de Assunção, aliados dos Paiaguás, de virem expugná-la e varrerem dali os portugueses. Foram certamente estes considerandos e a responsabilidade de que estava investido que levaram Ricardo a formular o projeto de um Forte permanente, de alvenaria de pedra, e de propor a sua construção. Eis como se exprime ele a respeito, no ofício de 02.09.1797, a que me referi no capítulo anterior:

 

Ficam patentes os defeitos que oferece esta estacada […]. Mas, quando ainda os não tivesse, bastaria ser uma débil e estreita estacada de 12 palmos de altura e menos de um de grosso […].

 

para que nada de resistência pudesse oferecer à artilharia do inimigo. A obra, porém, que Ricardo Franco desejava levantar, em substituição à velha paliçada, por si só era bastante para aumentar a confiança e o valor dos homens da guarnição contra qualquer investida de inimigos. Não se pode acusar de todo os Capitães-generais de desídia ou descaso pela falta de atendimento às necessidades de defesa da Fronteira Sul, reclamadas sem cessar pelos Comandantes de Coimbra e da Povoação de Albuquerque. É sabido, todavia, que Luís de Albuquerque se interessara, em caráter de preferência, pela construção do Forte do Príncipe da Beira. Ali empenhara enormes somas de dinheiro, muito embora esse local, na margem direita do Guaporé, não mais sofresse contestação dos confrontantes, por estar resguardado pelos Tratados de Limites.

 

Assim, porém, não acontecia a Coimbra e Albuquerque. Estas se achavam na margem Oeste do Rio Paraguai, fora das raias portuguesas. Não havia direito líquido sobre elas. A partir de 1777, as Comissões Demarcadoras deveriam definir, no terreno, a linha de separação dos territórios das duas metrópoles. Ora, prescrevendo o Tratado de Limites que as raias correriam pelo Rio Paraguai, era necessário que houvesse acordo nas demarcações para que fossem reconhecidas, como portuguesas, as ocupações destes na margem direita do Rio. Todavia, os comissários de limites, durante longos anos de negaças e desentendimentos, não conseguiram arrancar do impasse aqueles importantes casos controvertidos. Os Capitães-generais, não obstante sustentarem perante a Corte os direitos subsistentes, e as razões vitais da manutenção de Coimbra e Albuquerque, temiam que o Governo Português, por outros motivos, não menos poderosos, chegasse a negociar a evacuação daquelas posições e entregá-las às autoridades castelhanas. Essa ideia não é gratuita.

 

Ela andou bailando na cabeça dos Governantes Portugueses. Não fosse a resistência tenaz de Luís de Albuquerque, talvez ela tivesse vingado, à custa de compensações de outra ordem de interesses. O Gabinete Português chegou mesmo a prometer à Corte Madrilena, talvez para lograr outras vantagens, talvez por despistamento, que abandonaria aquelas posições. Fá-lo-ia, no entanto, em duas etapas. Primeiramente, evacuaria a região de Albuquerque para que viesse a servir às ligações fluviais de Chiquitos com Assunção e o Prata. Posteriormente, mediante novo acordo quanto ao tempo, destruiria o Presídio de Coimbra e abandonaria também essa posição.

 

Não padece dúvida a existência desse entendimento luso-castelhano. Azara, em suas cartas, faz menção dele e acusa as autoridades mato-grossenses de não lhe darem cumprimento. Sincero fosse ou não, o que é fato é que Luís de Albuquerque e seus sucessores não julgaram prudente realizar obras permanentes ou dispendiosas naquela região contestada. Nem a Povoação de Albuquerque nem Coimbra, até 1790 pelo menos, tinham consentimento para construírem obras de alvenaria, na suposição de as terem de abandonar aos castelhanos. Esta assertiva figura na conversação entretida por José Antônio Pinto de Figueiredo, Cmt de Albuquerque, e o piloto Martin Boneo, no encontro que tiveram no Rio Paraguai em setembro de 1790.

 

Declarou o Sargento-mor português àquele oficial espanhol, que o povoado de Albuquerque tudo produzia bem, e, portanto, no sentido de melhorar-lhe as condições de habitabilidade, propôs construir ali casas duráveis, de tijolo e telhas. A isso lhe respondeu o Capitão-general que tratasse tão só de conservá-lo nas condições em que estava, até que se realizassem as demarcações, pois poderia acontecer que esses terrenos passassem à Espanha e tudo o que ali fizessem ficaria perdido. Coimbra recebera idêntico aviso, afirmou Pinto de Figueiredo.

 

Boneo certificou-se que Figueiredo não adiantara uma informação graciosa, porque, quanto a Coimbra, já antes lho havia dito o Cmt daquele Presídio:

 

hay mucha piedra de cal, y se halla buen barro para teja y ladrillo, que no se hacían por prohibición.

 

Por estes considerandos, verifica-se que demoraram as providências dos Capitães-generais para tornar o Presídio de Coimbra uma posição eficiente e capaz de impor-se definitivamente, a exemplo do Príncipe da Beira. Seria, neste caso, o melhor e mais legítimo título do domínio português na margem Ocidental do Rio Paraguai. A ideia e o interesse de melhorar as condições defensivas de Coimbra e Albuquerque só tomaram vulto após a visita de Martin Boneo àquele Presídio. A esse tempo, não mais ocorria temor algum na Frente do Guaporé. Aconteceu então que, excluído o ano de 1775, pela primeira vez volveu sua atenção para a Frente Sul o Governo de Vila Bela.

 

Nos primeiros tempos, comandaram Coimbra oficiais de milícia, improvisados, homens dedicados e leais, capazes de todos os sacrifícios, mas grosseiros e sem luzes necessárias para apreciar devidamente uma situação tática e defrontar-se com tropas regulares inimigas. Foi, pois, somente a partir de 1790, sob a perspectiva de um ataque castelhano, que a Expedição Martin Boneo fizera prever, que o Governo de Vila Bela decidiu inscrever na ordem de primeira importância os problemas de segurança da fronteira Sul. O primeiro Comandante à altura da nova situação enviado para ali, foi o Major Joaquim José Ferreira, do Real Corpo de Engenheiros, que ali esteve de 1790 a 1792.

 

Agravando-se, porém, de novo, em 1797, as relações entre as metrópoles, decidiu Caetano Pinto enviar para o Presídio de Coimbra, no comando da Fronteira Sul, o oficial de maior relevo na Capitania, que era Ricardo Franco, então Tenente-Coronel. Foi este grande soldado que impôs, em definitivo, o domínio português na margem Ocidental do Rio Paraguai e assegurou defesa e respeito à Fronteira Sul da Capitania. (MELLO)

 

 

Autor e Fonte: Hiram Reis e Silva

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