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A Terceira Margem – Parte CCXXIV – Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 1ª Parte – IV Coronel Amílcar Botelho – I

Publicado em: 26/05/2021 - 10:40

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
1ª Parte – IV

Coronel Amílcar Botelho – I

Padrões de Heroísmo

Neste momento de terror, de discórdia universal, não vejo referência mais oportuna do que às “Impressões da Comissão Rondon”, a que chamarei, sem favor, Bíblia do Patriotismo Brasileiro.

 

Escrita com singeleza e com sinceridade de apóstolo, por um dos arrojados da civilização brasílica ‒ Major Botelho de Magalhães ‒ conforta pelos exemplos de energia e resignação; deleita pela variedade interessante dos episódios; comove até as lágrimas pelo altruísmo sem par desses soldados catequistas, que, embora armados e municiados, mostram a mais sublime das coragens – da imolação ao nobilíssimo ideal a que se votaram, matando no próprio peito o orgulho militar das façanhas cruentas!

 

Como cada capítulo sugira, consoante à natureza dos anotadores, um comentário novo, visto que em todos eles há matéria capaz das mais elevadas considerações de ordem moral, religiosa, social e política, escolho para as reflexões aquele que alude às humildes mulheres, cujas covas ondulam o deserto, como se fossem leirões de onde brotaram as negras e tristes árvores do sacrifício – as cruzes – que o luar dos ermos torna ainda mais tristes…

 

Se é verdade que estes lúgubres madeiros fazem a solidão bem mais melancólica, não é menos certo que os seus braços hirtos ali ficam para orientar os viajoresque ousadamente se aventuram às imensidades dos rincões agrestes. Não sou dos que exalçam as vantagens da existência do sertanejo, porque não creio em que seja menos branda que a do campino a vida dum tecelão ou dum foguista: um, curvado sobre as meadas, atento ao risco dos matizes, horas a fio; outro, à boca rubra duma fornalha, os olhos sempre fitos nessa visão do inferno, que o leva pouco a pouco à cegueira. Nem sei que menos árdua seja a existência dum cavouqueiro, pendente da rocha a pique, sob a soalheira brava, da que a dum pastor ou vaqueano que respire livremente os ares puros dos alcantis e as brisas frescas dos campos gerais. O povo é resistente, sóbrio e resignado, tanto no centro quanto no litoral. […]

Goulart de Andrade.

 

Expedição Roosevelt

Considerações

[…] O Governo brasileiro, atendendo aos desejos manifestados pelo notável e saudoso estadista da América do Norte, organizou uma Comissão Brasileira para o acompanhar na arrojada travessia do Sertão de nossa Pátria e escolheu para chefiar essa Comissão “the right man to the right place” – o então Coronel Rondon. À larga visão de um jovem estadista – o Sr. Lauro Müller – Ministro das Relações Exteriores nessa época, devem-se os extraordinários benefícios que advieram para o nosso país, com a acolhida de tal iniciativa, não só pelo reconhecimento geográfico de uma região até aí desconhecida e pelos estudos de história natural realizados na zona percorrida, como também pelo valor da propaganda do Brasil no estrangeiroespecialmente na América do Norte, através do livro que Roosevelt publicou sob o título “Through the Brasilian Wilderness”, livro que ele foi escrevendo no decorrer da própria Expedição.

 

Esta publicação pertence ao raro número das que se cingem à estrita verdade dos fatos narrados e que revelam da parte do autor qualidades de uma justa observação dos homens e das coisas. Na generalidade dos casos os narradores de expedições, quando não inventam situações para sobrelevar as suas qualidades pessoais, como os “Savages Landor, contam os fatos com parcialidade acentuada, sendo exceção os que se podem relacionar entre aqueles que observam e julgam com exatidão. Roosevelt, porém, era um narrador imparcial e exato, como devem ser os historiadores que bem mereçam o qualificativo. Logo que Lauro Müller transmitiu o convite a Rondon, este acedeu imediatamente ao apelo do Governo, ponderando em todo o caso que estaria pronto para o desempenho da Comissão certo de que não se tratava de um mero passeio de “sport”, mais ou menos perigoso, mas que o Governo ligaria aos intuitos de uma travessia pelo Sertão, objetivos científicos de utilidade para nossa Pátria. […] Na verdade, depois que Roosevelt fez a sua Expedição à África, a presunção geral era de que o arrastavam exclusivamente preocupações cinegéticas.

 

No decorrer da Expedição Roosevelt, adquirimos a convicção de que o seu espírito superior e a sua coragem individual, só estavam ao serviço das caçadas com o nobre objetivo de obter espécimes destinados ao Museu de New York e com os desejos de ser ele próprio o caçador dos animais de maior porte e de aquisição mais perigosa. A Expedição durou quase cinco meses, desde que Roosevelt se encontrou com a Comissão Brasileira, em 12.12.1913, na Foz do Rio Apa, limite do Brasil com o Paraguai, até fins de abril de 1914. Durante dois meses Roosevelt, Rondon e o pequeno grupo de expedicionários que desceram o “Rio da Dúvida”, atravessaram uma região inteiramente virgem e sentiram as sensações das surpresas do desconhecido e as emoções inesquecíveis das verdadeiras explorações, que se caracterizam pelas incertezas de seu êxito e da sobrevivência dos exploradores…

 

Roosevelt “Versus” Savage

Tertius Gaudet

 

Quando no Pará e antes de embarcar para os Estados Unidos, o Sr. Roosevelt prometeu que iria contestar todas as patranhas e lorotas que o explorador Savage Landor tem dito sobre o grande sertão norte do Brasil. Sabedor
disso, o Sr. Savage Landor já desafiou o Sr. Roosevelt
a que realizasse tal ameaça.

Roosevelt:‒ Engole! Engole todos canarás que tua fantasia esquentada tem produzido. Você é um explorador de meia tigela!

Savage Landor:‒ E Você acha que é melhor do que um sapo?

Zé Povo:‒ Hein, seu Lauro Isto é o diabo! Que me diz a esse futuro bate-barbas?

Lauro Muller:‒ Digo-te que tudo quanto o diabo faz, também é para melhor. Nesse próximo duelo de explorações sairá vencedor o Brasil explorado, que ficará mais conhecido.

 

Trabalhos Realizados

[…] A parte geográfica compreendeu o levantamento dos Rios da Dúvida, Papagaio, trechos do Taquari, do Comemoração de Floriano e Ji-Paraná. Todas as cadernetas desses levantamentos e os desenhos correspondentes foram incorporados ao acervo da Comissão Rondon e estão sendo aproveitados para a remodelação da Carta Geográfica do Estado de Mato Grosso.

 

Revelações Geográficas

A Expedição identificou o Rio da Dúvida ao Alto-Castanha, resolvendo simultaneamente duas incógnitas: uma apresentada pela Comissão Rondon, quando, pela primeira vez, em 1909, cortou esse curso de água que, pela direção, poderia ser afluente do Aripuanã, ou do Ji-Paraná [donde o nome de Rio da Dúvida]; outra quanto à posição até então desconhecida das cabeceiras do Rio Castanha verificou que se tratava do mesmo Rio e o locou definitivamente no Mapa do Brasil, dando-lhe o nome de Rio Roosevelt, desde suas cabeceiras até sua Foz no Madeira e considerando o Rio Aripuanã como seu afluente da margem esquerda, além da homenagem prestada ao estrangeiro ilustre, a Comissão Rondon, atribuindo ao antigo Rio Castanha o papel de principal, modelou o acidente geográfico lançado ao Mapa, segundo as mais modernas teorias, que fazem prevalecer como principal, não o Rio de maior volume de água, mas o que se apresenta na direção geral do vale, relegando ao segundo plano a condicional da descarga.

 

É evidente que essa descoberta só foi realizada graças à ideia de Roosevelt atravessar o nosso Sertão e que só este duplo resultado seria atingido com a exploração e o levantamento a que se procedeu, percorrendo a parte desconhecida e nunca penetrada desse Rio.

 

Outra descoberta de ordem geográfica é a que se refere ao Rio Papagaio. Quando a Comissão Rondon, sob a iniciativa de seu ilustre chefe, começou a apagar das velhas cartas existentes a indicação de desconhecido que cobria larga faixa do Noroeste do Brasil, ao interceptar com a linha telegráfica e com as suas explorações o vasto leque formador do Rio Tapajós, ainda formulara a princípio a hipótese de que o Rio Papagaio iria lançar-se no Sacuruiná [Xacuruiná em certos mapas] logo abaixo da confluência deste com o Rio do Sangue.

 

A Expedição Roosevelt, destacando uma turma de exploração que desceu e levantou o Rio Papagaio, determinou o seu verdadeiro curso, desde o passo da linha telegráfica [Estação Telegráfica de Utiariti, onde se encontra o belo e potente salto do mesmo nome] até a Foz no Rio Juruena. Assim o Rio Papagaio, depois de confluir com o Sacre, recebe o Buriti pela margem esquerda; reune-se-lhe a jusante ainda e pela mesma margem o Saueuiná [nome Paresí do Papagaio] indo afinal lançar-se no Juruena pela margem direita. O Rio do Sangue [Zutiaharuiná em língua Paresí], depois da confluência com o Sacuruiná, recebe sucessivamente de montante para jusante o Membeca, o Treze de Maio e o Cravari, descendo depois a desaguar no Juruena pela margem direita, abaixo do Papagaio.

 

A publicação número 26 da Comissão Rondon [3° volume do relatório geral do Chefe] traz apenso um Mapa do Rio Juruena, organizado segundo os últimos trabalhos e que qualquer curioso poderá confrontar com as cartas anteriores, para verificar a profunda modificação decorrente do serviço geográfico realizado nessa zona, mesmo comparando-se o que ali está com o que se encontra na segunda edição [1913] do Mapa do Brasil, editado pelo Jornal do Brasil, onde já entraram correções geográficas provenientes dos nossos trabalhos.

 

Minha Colaboração

[…] Ao concluir os serviços de campo, fui nomeado, em maio de 1914, Chefe do escritório central da Comissão Rondon, cargo que me honro de desempenhar até a presente data. Já empossado destas funções, coube-me o trabalho de encerrar as contas da Expedição, visto que o então Cel Rondon, despedindo-se de Roosevelt, em Belém do Pará, regressara ao insano labor do Sertão, na árdua tarefa de concluir a Linha Telegráfica de Cuiabá a Santo Antônio do Madeira, inaugurada em 1915. Além disto, cumulativamente ao afanoso encargo que assumira, superintendi os trabalhos de publicação dos Relatórios da Expedição Roosevelt. A este propósito cumpre salientar que nem todos os nossos homens de Governo compreendem o alcance que representa a impressão dos mapas e dos trabalhos de história natural! O Sr. Lauro Müller, porém, manifestava-se de acordo com o nosso ponto de vista: “sem publicartudo se perde nos arquivosalém de representar um capital inativoà falta de circulação”. […] (MAGALHÃES, 1916)

Autor e Fonte: Hiram Reis e Silva

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