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A Terceira Margem – Parte CCXXXII – Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 1ª Parte – XII

Publicado em: 07/06/2021 - 5:20

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
1ª Parte – XII

Foz do Apa – Porto Murtinho

 

Rondon: altura média, testa larga, fisionomia distinta, traços finos, olhos amendoados, queixo delgado. Herói que nasceu soldado e morrerá soldado. Mas herói “sui generis” que, para não matar, nem deixar que se matasse um só homem, preferiu arrostar cem vezes a morte…
(Mehmed Fuad Carim ‒ Embaixador da Turquia no Brasil)

O Ex-Presidente Theodore Roosevelt reporta, no seu diário, a jornada fluvial desde Assunção, Paraguai, até a Foz do Rio Apa a bordo da canhoneira paraguaia “Adolpho Riquielme” onde encontrou-se com Rondon e sua equipe:

Roosevelt: Subindo o Rio Paraguai

09.12.1913: Na tarde de 9 de dezembro deixamos a atraente e pitoresca cidade de Assunção para subir o Paraguai. Com generosa cortesia, o Governo paraguaio havia posto à minha disposição a canhoneira-iate do próprio Presidente, vapor fluvial muito confortável, de modo que os primeiros dias de nossa Expedição foram absolutamente agradáveis. O alimento era bom, nossas acomodações asseadas, dormíamos bem, embaixo ou no convés, usualmente sem mosquiteiro. Durante o dia o convés, sob o toldo, era agradável. […]

10.12.1913: Muito tarde, no segundo dia de nossa viagem, pouco antes da meia noite, chegamos a Concepción. Nesse dia, quando paramos para receber lenha e conseguir provisões – em lugares pitorescos, onde mulheres moradoras em choças cobertas de sapé e de paredes de barro lavavam roupas no Rio, ou cavaleiros maltrapilhos nos miravam, parados na barranca, ou estancieiros morenos e bem trajados estavam em frente de casas cobertas de telhas – apanhamos muitos peixes. Pertenciam eles a um dos mais temíveis gêneros de peixes que existem no mundo: a piranha ou peixe canibal, que devora o homem quando se dá oportunidade. Mais para o Norte existem espécies de piranhas miúdas que andam em cardumes. […]

11.12.1913: Na madrugada do terceiro dia, vendo que ainda estávamos atracados ao largo de Concepción, fomos à terra em canoa e perambulamos pelas ruas da bonita e pitoresca cidade antiga que, como Assunção, foi fundada pelos conquistadores, três quartos de século antes dos nossos antepassados ingleses e holandeses desembarcarem onde hoje existem os Estados Unidos. Os jesuítas tomaram então, virtualmente, posse completa do que é hoje o Paraguai, dominando e cristianizando os índios e elevando suas florescentes missões a um apogeu de prosperidade a que nunca atingiram missões em qualquer outra parte. […]

12.12.1913: Continuamos navegando Rio acima. De quando em quando cruzávamos com outra embarcação – um vapor, ou, com surpresa nossa, um bergantim, talvez, ou escuna. O Paraguai é uma grande artéria comercial. Certa ocasião passamos por uma grande fábrica de carnes em conserva. Casas de estâncias apareciam em ambas as margens, poucas léguas distantes uma das outras, e nós parávamos nos portos de lenha, à margem ocidental. […] Às 12h00 do dia 12 chegamos à fronteira brasileira. Durante esse dia passamos por colinas baixas, de forma cônica, próximas ao Rio. Por espaços, touças de palmeiras irrompiam através das restingas de mato baixo e se estendiam por um ou dois quilômetros, orlando as margens do Rio. […] Paramos em um curtume. O proprietário era um espanhol e o gerente um “oriental”, como a si mesmo se chamava, uruguaio descendente de alemães. […] Na fronteira brasileira encontramos um vapor de fundo chato, que conduzia o Cel Cândido Mariano da Silva Rondon e outros membros brasileiros da Expedição. O Cel Rondon imediatamente mostrou seu valor, que superava tudo quanto se pudesse desejar. Era evidente que conhecia a fundo seu ofício e era igualmente óbvio que seria um companheiro agradável. Fora colega do Sr. Lauro Müller, na Escola Militar do Brasil. É de sangue índio quase puro, e positivista ‒ os positivistas constituem, realmente, uma forte agremiação no Brasil, como sucede na França e no Chile. […] Na comitiva do Cel Rondon estavam o Cap Amílcar de Magalhães, o Ten João Lira, o Ten Joaquim de Mello Filho e o Dr. Eusébio de Oliveira, geólogo. Os vapores pararam. O Cel Rondon e vários de seus oficiais, corretamente uniformizados de branco, vieram a bordo; à tarde visitei-o no seu navio, para trocar ideias sobre nossos planos. […] O Cel falava francês tão bem como eu; mas é claro que ele e os outros preferissem o português e então Kermit servia de intérprete. (ROOSEVELT, 1944)

 

Expedição Centenária 

03.08.2017: Chegamos a Porto Murtinho, MS, no dia 03.08.2017, por volta das 19h00, e fomos gentilmente recepcionados com um magnífico jantar no Saladeiro Cuê gerenciado pelo Ir:. Antônio Carlos Dias Barreto (Toninho) e sua querida esposa Conceição Aparecida Montanheri.

A organização do evento foi patrocinada pela 2° Cia Fron sob a coordenação impecável de seu SCmt Cap Tiago de Lima Ferreira e do 1° Ten Walmir Mathias Teixeira. Enquanto os amigos expedicionários, o anfitrião e os amigos da 2° Cia Fron conversavam animadamente eu e a D. Conceição confidenciávamos à cabeceira da grande mesa. D. Conceição mesclava nosso bate-papo declamando e cantando para os convidados.

Depois de conhecer minha história de vida, da situação da minha esposa, enferma há quase 14 anos, ela pediu para que eu declamasse uma de minhas poesias preferidas – Vento Xucro de Jayme Caetano Braun e depois cantou uma música de sua autoria especialmente dedicada ao seu caro esposo Toninho.

Toninho

(D. Conceição Aparecida Montanheri)

No dia em que eu te conheci

O céu abriu as portas e eu entrei

Um novo sentimento eu conheci

Eu tive tanto medo, mas eu te amei.

Você me deu coragem e eu cresci

Nas nuvens mais distantes flutuei

Você mostrou-me a fonte e eu bebi

Soprou-me as asas e eu então subi.

Sonhando em teus braços eu voei

Eu voei, voei alto como só voa o Condor

Vendo estrelas do prazer do nosso amor.

Junto comigo você também voou

Eu voei entre os astros de mãos dadas com você

Se pus fé nas minha asas foi porque

Você me fez bem mais forte do que sou

Foi em você que eu me descobri

Mas como aconteceu isso eu não sei

Eu tinha um coração batendo aqui

Mas antes de você eu nem notei.

Você é muito mais do que eu pedi

É a força da palavra de um Rei

É a neve que ampara o meu esqui

É o livro onde amar eu aprendi.

Eu sei que em outras vidas eu já te amei

Eu voei, voei alto como só voa o Condor

Vendo estrelas do prazer do nosso amor.

Junto comigo você também voou

Eu voei, entre os astros de mãos dadas com você

Se pus fé nas minha asas foi porque

Você me fez bem mais forte do que sou.

 

Com os olhos rasos d’água, gravei a linda declaração em forma de canção que D. Conceição solicitou que eu, um dia, levasse até o leito de minha esposa e tocasse para ela ouvir. A viagem até Porto Murtinho foi altamente recompensada graças à oportunidade de poder conviver, ainda que por breves momentos, com este fantástico casal além de poder conhecer as instalações da charmosa pousada às margens do Paraguai.

A partir do século XVI, os espanhóis introduziram, na região, a pecuária que deu origem à indústria do charque que se transformou, a partir do século XIX, em uma das principais atividades econômicas. A indústria do charque ou “saladeiros”, contava com mais de 20 instalações, construídas às margens do Rio Paraguai com o intuito de facilitar a importação de insumos e a exportação de seus produtos.

Os saladeiros aproveitavam além da carne e do couro, o osso, o chifre, a gordura e o casco. O empresário uruguaio José Grosso de Ledesma (Don Pepe) fundou, em 1912, no Barranco Branco, a sua indústria que, em 1917, foi transferida para o local onde atualmente funciona o Hotel Saladeiro Cuê, que era composto de chalés para diretores e operários. A maioria do gado era oriundo da Fazenda São Francisco, do próprio Don Pepe. O estabelecimento, que funcionou até a década de 1960, processava cerca de 100 reses por dia e empregava mais de 100 indivíduos.

A produção atendia ao mercado interno, principalmente Rio de Janeiro e Nordeste, e era exportada, também, para o mercado europeu. Pernoitamos a bordo da embarcação KEMOSABE ancorada no porto da 2ª Cia Fron.

04.08.2017: Acordei, como de costume, antes do alvorecer, às 05h00. A avifauna promovia uma agradável manhã festiva nas barrancas do Paraguai. Visitei a Agência Fluvial da Marinha, comandada pelo Capitão-Tenente Sandro Silvetri, com a finalidade de solicitar, se possível, o uso de sua rede para reportar nossa jornada. Fiquei sabendo, então, que a embarcação que tínhamos contratado (KEMOSABE) não estava com a documentação em dia, e, portanto, impedida de seguir viagem. O CT Silvetri autorizou que o 1° Sgt Leonardo Abrantes de Lima Nova nos orientasse na busca de uma nova nau, sendo, depois de muitas tratativas, acordado que seria a Chalana “Calypso”.

Por espaços, touças de palmeiras irrompiam através das restingas de mato baixo e se estendiam por um ou dois quilômetros, orlando as margens do Rio. (ROOSEVELT, 1944)

À tarde, fomos até a Boca do Rio Apa, apoiados por militares da 2ª Companhia de Fronteira. Extensas matas de carandás (Copernicia alba) adornavam as margens majestosamente. O Carandá é uma palmeira nativa da região do Chaco boliviano e paraguaio, Brasil (MS e MT) e Argentina. Seu belo tronco, que pode atingir até 30 m, de altura é usado na indústria madeireira, suas folhas na alimentação dos animais, cobertura de abrigos e produção de artesanato e os frutos como isca.

05.08.2017: Mantive minha espartana rotina e antes do Sol nascer fui dar um passeio pela cidade. Porto Murtinho é uma cidade por demais pacata e agradável. Uma sadia miscigenação gerou um cadinho de finas especiarias dentre as quais as que mais se destacam são a simpatia e a educação de seus ordeiros habitantes. O site da Prefeitura nos informa:

Estrategicamente localizado na fronteira com o Paraguai, Porto Murtinho foi criado em 1911 e emancipado em 13.06.1912, tendo como cenário principal, a exuberância do Rio Paraguai. Com mais de 100 anos, o município se destaca por ter sido palco de uma série de acontecimentos marcantes na história do nosso País, como a Guerra da Tríplice Aliança e a Revolução de Getúlio Vargas de 1932. Foi também um dos municípios mais importantes para o desenvol­vimento de Mato Grosso do Sul, pois, devido ao Porto de exportações, passou por ciclos econômicos importantes que à época impulsionaram a economia do Estado. As construções arquitetônicas e monumentos históricos espalhados por toda a cidade são verdadeiros museus a céu aberto e se tornaram um dos principais atrativos turísticos. Uma volta pela cidade expõe a riqueza vivida pela população no auge dos ciclos da erva-mate, tanino e charque. […]

Roosevelt: Porto Murtinho

12.12.1913: Pela tarde, logo após o nascer da lua, paramos para receber lenha em Porto Murtinho, pequena cidade brasileira, onde vivem cerca de 1.200 habitantes. Alguns edifícios eram de alvenaria; uma grande morada particular, com uma torre acastelada, era de pedra; havia casa de comércio e correio, depósitos, um restaurante, salão de bilhares e armazém para o mate, que em grande vulto é produzido na região adjacente. Na maior parte as casas eram baixas, com telhados inclinados em rampa, e havia jardins com altos muros, em cujo interior se viam árvores, muitas das quais olorosas.

Vagueamos em ruas largas e cheias de pó, caminhando em seus estreitos passeios. Era um anoitecer cálido e o cheiro dos trópicos impregnava o ar abafadiço de dezembro. Pelas portas e janelas abertas avistamos vagamente os moradores seminus das casas mais pobres; mulheres e meninas ficavam sentadas fora de suas portas, ao luar. (ROOSEVELT)

 

Autor e Fonte: Hiram Reis e Silva

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